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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Hagalla a Dança da celebração da Puberdade


As minhas fontes de pesquisa são: curso de Formação em Folclore Árabe com Pricilla Samra, um texto de Farida Fahmy (livro que é resultado da conclusão de mestrado em Artes e Dança da Universidade da Califórnia) e sites sobre música árabe:
http://www.vitorabudhiar.com/instrumentos.htm




Resumindo essa dança folclórica, muito dançada pelos beduínos, representa a passagem da menina para mulher, ou seja, a chegada da sua puberdade. Os seus movimentos de mãos e quadril não possuem significados, porém tem alguns instrumentos que possuem uma significação e alguns detalhes importantes.

Tem sua origem na Líbia, Siwa e Marsa Matruh no Egito. E Mahmoud Reda iniciou seus estudos, especificamente dessa dança em 1966. Vale lembrar que o que conhecemos de folclore partiu de suas pesquisas, e são adaptações para o palco, porque todas as danças, sem exceção quando praticadas no dia-a-dia não possuem nenhum atrativo.

A base rítmica é o Kahachi, podendo ter algumas variações no meio da música, mas é ele quem comanda.

O figurino é simples, podendo ser uma galabia comprida e um lenço de quadril. O mais usado é uma saia longa, rodada com babado, botas ou sapatos e acessórios na cabeça, adornos nos braços.

Dança-se apenas uma mulher, e uma fila de homens que batem palmas de forma específica, isso significa "Flerte". É o momento da escolher um pretendente, e quando escolhido esse deve dançar e flertar de forma a conquista-la. Ela pode mudar a escolha e quando a faz, entrega suas jóias ou adornos para fortalecer a escolha.



Nesse momento, o rapaz também pode dar um lenço ou mesmo dançar, representando que “enlaçou” a menina. Depois dessa passagem, nenhum homem pode mais paquera-la.

Os movimentos são: shimmies, twistes, básicos, 8 para trás, redondos, com um detalhe, todos são realizados com torção, com pé no chão, exceto os básicos e uma variação de twiste. Os básicos são exagerados, bem torcidos e com pernas altas, com algumas sentadinhas

No texto da Farida Famy também encontramos:

“Na Hagalla há um aspecto competitivo onde diferentes grupos batem palmas chamando a solista, e aquele grupo mais forte ou carismático ganha a presença da solista perto dele. Essas palmas sofrem flutuações de dinâmica e velocidade, o que pode alterar a construção da dança. Uma mulher ou uma dupla de mulheres, dançam movidas pelas palmas de grupos de homens, que competem entre si para ganhar a atenção das mesmas.

A Hagalla geralmente acontece para celebrar casamentos ou as vésperas de um enlace, ou também são é apresentada em festas para honrar visitantes ou selar um compromisso”.

E para acabar, os principais instrumentos (a maioria de percurssão) são: DAFF, MAZHAR e a RABABA.



No vídeo do Reda, dá para ver todas as características de figurino e passos, uma obrigação para qualquer bailarina estudar e conhecer:




Esse, que é uma parte de um filme, é o meu preferido, dá para ver as paquerinhas, competições, a escolha da mulher e suas jóias retiradas. Confiram:




Agora uma adaptação do Reda para os palcos:



quarta-feira, 3 de junho de 2009

O artista e o superego

É fato que todo artista se cobra demais, exige de si mesmo algo sobrenatural, e nunca pára de buscar a perfeição. E a perfeição existe? Ou ela é relativa, muda de acordo com o momento e a época, ou melhor... pode ser muitas coisas ao mesmo tempo.

Quem nunca olhou pro passado e se perguntou: Caramba! Como tive coragem de fazer isso? - As da dança do ventre, principalmente - Como usei essa roupa? Como usei esses braços? E etc... por ai vai. Mas não será também um processo, um aprendizado, e se nos limitarmos ao não experienciá-los, estaremos nos limitando a aprender?

Muitas vezes o artista cria e ao mesmo tempo destroi, por achar ruim, isso, antes de mostrar à alguém. E nossa criação, seja ela uma coreografia, uma música, uma pintura ou performance, acaba sendo nosso "filhote" - é horrível receber críticas.

E nessa luta com o superego, que é insconsciente, uma cobrança constante da moral, dos bons costumes, do correto, nem percebemos que anulamos nossos desejos, nossos impulsos... desde "sociedade" deseja.

Assim, deixamos o experimentalismo de lado, a curiosidade, a criatividade, o questionamento, a busca de ver como seria se fosse feito do outro jeito... e isso, para mim, é o ínicio de qualquer processo criativo, seja ele na dança, ou em qualquer linguagem artística.

Antes de ser professora, bailarina de dança do ventre, sou uma artista e sinto falta de ousadia, experimentalismo. Vejo isso em minhas aulas, é mais fácil realizar algo coreográfico, figurativo do que algo libertário e abstrato. As pessoas se auto limitam com medo de errar.

Foto de Marcel Dunchamp

Citarei apenas alguns nomes, porque senão nunca acabaria esse post. O que seria das artes, sem o Duchamp ou Tizan com o manifesto Dadá? Olha um poema:

Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.
Foto de Tzan Tzara

Das nossas artes sem o concretivismo, abstracionismo e a criação dos paragolés e da arte experimental do Hélio Oiticica? Na música com os Mutantes, Secos e Molhados, Lenine...?

E da dança sem Isadora Duncan (existem outros, mas citarei apenas ela)? A primeira a se libertar das duras sapatilhas de ponta, do tuttu, e da rigidez do ballet. Na dança do ventre conhecemos várias bailarinas que ousaram em mudar o figurino, acrescentar alguns passos, misturar músicas, e hoje tem muita gente boa fazendo isso: Adoro!! Apesar de eu ser "clássica", adoro inovar e radicalizar - os opostos se complementam.

Mas porque não falar do Mahmoud Reda? Ele não pegou o popular, acrescentou a dança clássica, para criar espetáculos de folclore árabe? Modificou para criar as apresentações de palco, mas eternizou a sua cultura, oferecendo antes de tudo um material pra estudo, aprimoramento técnico e apreciação artística.

Para fechar, vou terminar com esse video Elephant Gun, adoro a música e a experimentação desses músicos, do Beirut. Apreciem sem moderação! E reparem na coreografia dos bailarinos!

Foto de Isadora Duncan