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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Improvisação com técnica e sentimento - Parte 2

Quem nunca sentiu uma raiva indescritível após uma improvisação? E ainda numa música que não conhece? Ninguém gosta disso, mas será esse o caminho da boa dança?

Improvisação boa só se dá após um estudo e trabalhos árduos, quando o corpo consegue e "possui" os passos em seu repertório, quando a intuição está apurada e aguçada para identificar as próximas fases da música e claro, quando a bailarina possui uma sensibilidade aguçada para interpretar as nuances diferentes de uma música árabe.

E tudo isso não vem na sorte, à toa ou quando nos entregamos como "loucas": é só deixar tocar que danço!

Não e não! Improvisar, não só para mim como para as minhas professoras é: fazer de forma consciente os passos juntamente com a entrega e para isso é necessário estudar bem a música - esse negócio de improvisar uma música que não conhece nem sempre é o caminho correto para realizar uma boa improvisação.

Com muitos treinos e estudo, conseguimos identificar a estrutura básica de uma música árabe, e assim... como eu já escrevi, nesse momento a nossa intuição e sensibilização já estão aguçadas... é claro que para termos elas também há vários exercícios e lições a serem feitas.

A improvisação não está presente apenas nas danças orientais, antes mesmo dos movimentos se tornarem uma dança padronizada, os homens se comunicavam por gestos, sons, e não pensavam exatamente no que iam fazer, ou melhor, seus movimentos eram criados a partir das emoções e das sensações.

Somos um corpo vivo, com células e sistemas, não esqueçamos do sistema nervoso o qual envia energias para os músculos, ditados pelo cérebro... uma máquina perfeita impossível explicá-la apenas pela razão.

Gosto muito do texto de Mara F. Guerreiro, da UFBA, "Formas de Improvisação na Dança". De forma resumida e fácil ela explica bem melhor tudo isso que em dois posts, tentei falar.


‘A improvisação’ não pode ser tratada como um modo único, monolítico, de organização. Lisa Nelson e Steve Paxton (apud KATZ, 2000) defendem a necessidade de empregar nomes adequados para cada tipo de improvisação. Segundo Nelson e Paxton, improvisação “é uma palavra escorregadia”, muito genérica, exigindo um trabalho de classificação e detalhamento. (...)



São propostos dois modos de uso gerais: 1 improvisação sem acordos prévios; 2 improvisação com acordos prévios, que se subdivide em duas classes: 2.1 improvisação em processos de criação; 2.2
improvisação com roteiros.


O primeiro tipo é o mais usado por nós, o Improvisação sem acordos prévios, que nada mais é que não combinar nada, nem ensaiar e ter total autonomia e responsabilidade do resultado da apresentação, que é feita e criada na hora, apenas escolhe a música ou marca algumas ações. E vejam que observações importantes:


Carter (2000) alerta para o risco da repetição de padrões habituais tanto dos artistas como do público, em relação aos
velhos padrões sobre fazer e assistir dança. Ele afirma que é necessário olhar para essa forma de
improvisação sem as expectativas de eficiência ou de espetáculo.


E como é recorrente o incômodo desse tipo de improvisação, alguns bailarinos, Dunn, Paxton, Nelson, Hagendoorn, Zambran, criaram os treinamentos:


As formulações de treinamentos têm como propósito ampliar: repertório de 
movimento, atenção, percepção e entendimento sobre composição; exige repetição, método, 
pré-estabelece movimentos, focos de atenção e objetivos sobre composição. Este ‘preparo’ 
replica as tendências praticadas, e dessa forma, torna-se possível identificar interesses 
compartilhados.




O segundo tipo que é a Improvisação com acordos prévios não é muito usado na nossa área porém, podemos conhecer e começar a usar, pois tem ações bem interessantes:





2.1 Improvisação em processos de criação

Trata-se de processos de criação que contam com improvisação como fomentadora de 
suas investigações. Esses processos ocorrem no período anterior à apresentação da dança, são

experimentos realizados entre artistas, durante ensaios, que posteriormente se formalizarão em
composições.

O bacana desse tipo é você como artista em sua pesquisa e suas experimentações. São nossos momentos de improvisações e treinos na sala de aula, sozinha, como forma de ensaio e estudo. O que nós fazemos muito: treinar, criar e improvisar num ritmo árabe como forma de explorar novas combinações de passos, ou criações de movimentos mais avançados de quadril, braços e pernas.

2.2. Improvisação com roteiros

O termo roteiro aqui é adotado como regras prévias, relativas a condições e possibilidades de ocorrência da improvisação. Os roteiros servem como parâmetros, definindo: desenvolvimento da improvisação; e/ou tipos de movimentos; e/ou relações entre dança e outras linguagens; e/ou relações entre artistas; e/ou relação com público; etc. São restrições pré determinadas a serem agenciadas durante apresentação, mantendo autonomia do artista sobre a composição.

Bom... essas são algumas teorias sobre o tema, e dançar não é apenas se movimentar, como qualquer linguagem artística é dedicação, estudo, experimentação e trabalho corporal e teórico também. espero que seja útil à alguém.





sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Uma boa improvisação nasce de um bom trabalho corporal - Parte 1

Já escutaram a seguinte afirmação: "Quando se faz errado, treina errado e o corpo aprende errado" - e o resultado disso são os vícios, passos executados da forma incorreta, exageros na expressão corporal ou facial e os dois e etc.

E acredito que todas que iniciaram na dança do ventre odiavam o momento da improvisação e não imaginavam o quanto era importante para o processo de aprendizado. Eu queria fugir, me esconder... mas encarava! E minha prof. não era moleza não, já dava músicas clássica com 10 min. e falava: "Uma boa bailarina tem que saber dançar 10 min improvisados".

Mas... o que fazer para improvisar da forma correta? Como improvisar e sair feliz com ela numa apresentação?

Como improvisar de forma consciente? - essa é a questão.

Na dança acadêmica, a improvisação é uma forma de composição para o corpo, surgiu com Isadora Duncan, Merce Cunnighan, Laban e outros transgressores da arte, que revolucionaram a forma de dançar e coreografar, permitindo que coreógrafos e bailarinos participassem do processo de criação.

A coreografia não era a única forma de montar um espetáculo.

Nas danças folclórica e populares, a improvisação faz parte delas, ai entra dança de salão, a nossa dança do ventre, o samba e etc.

Cresci na dança do ventre escutando que era super importante saber improvisar, e é! Mas depois de tantos erros, aprendi também que minha improvisação só melhorou no momento em que, além de estudar muito as músicas, me dediquei muito aos estudos de passos, de bailarinas através de vídeos e procurei fazer sempre uma leitura apurada dos instrumentos.

Trabalhar o corpo e estudar os passos, sequências e treinar repetindo sempre - assim meu corpo adquiriu um repertório para ser usado em qualquer momento na dança árabe.

Mas isso é super etéreo, não é? A maioria das bailarinas acham que improvisar é se jogar, dar a louca, "sentir a música"... errado! Só quando o corpo entender os movimentos de forma consciente, porque ele tem uma memória, é que a bailarina conseguirá improvisar da melhor maneira possível.

Antes de falar da Memória Corporal, devemos estudar a música árabe e perceber que a clássica padrão, tem a mesmo forma, basicamente:

introdução, entrada (normalmente com maksum), transição para uma baladi, taksins, folclore básico (apenas uma parte), derbake, finalização, encerramento com a mesma entrada.

É uma receita de bolo, se estudarmos cada parte dela, praticar todas as possibilidades, você saberá improvisar bem uma música clássica. Convenhamos que essa estrutura é a união de tudo da dança do ventre, por isso que uma clássica de 10 min permite à bailarina mostrar toda a sua técnica.

O corpo é um sistema funcional e vivo, tem seus esquemas e sua inteligência próprias, no momento em que improvisamos usamos essas inteligências ou não, e o colocamos em prova à mudanças, ao novo e ao desafio.

Por isso que é tão difícil improvisar, e quando o fazemos, quem não estuda sempre faz a mesma coisa!

E a Dança também é um sistema: de códigos, de mensagens, de passos e estruturas.

... "a improvisação é uma conquista que precisa de tempo, precisa ser temporalizada naquele sistema".
 Cleide Fernandes Martins • 01/01/2003 

No próximo post escreverei a segunda parte!